A rentabilidade dos canteiros de obras no Brasil tem escoado, literalmente, para o lixo. Um levantamento recente conduzido pela Abrecon (Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição) revela que o país desperdiça, a cada ano, aproximadamente 41,2 milhões de metros cúbicos de sobras de materiais. Esse volume monumental evidencia um gargalo crônico: o desperdício na construção civil.
Historicamente, as construtoras sempre concentraram seus esforços de gestão na compra de insumos, contratação de mão de obra e cumprimento de cronogramas. O descarte, por outro lado, foi relegado ao status de mera consequência da operação. No entanto, o cenário econômico apertado e a queda na produtividade do setor vêm obrigando os empresários a recalcularem a rota.
A queda de produtividade no radar das construtoras
Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) trazem um panorama preocupante: nos últimos 30 anos, a produtividade da construção civil brasileira encolheu cerca de 20,4%. O paradoxo é que esse declínio ocorreu justamente no período em que a tecnologia, os softwares BIM e a inteligência artificial ganharam tração nos projetos arquitetônicos e estruturais.
Para Eduardo Nascimento, fundador da startup Minha Coleta, o setor começou a perceber que o ganho financeiro não está apenas na automação do início da obra, mas também na gestão eficiente de seu fim. “As empresas sabem o custo do material que entra, mas fecham os olhos para o valor que sai na caçamba. Há uma riqueza enorme que poderia ser reaproveitada ou comercializada na cadeia da reciclagem”, avalia.
Recuperação de resíduos: de custo a ativo financeiro
O conceito de economia circular ganha cada vez mais fôlego nos canteiros modernos. Transformar sobras em novos recursos é uma estratégia direta para mitigar o desperdício na construção civil.
Projetos encabeçados por grandes players, como a Cyrela, já demonstram a viabilidade prática dessa transição. Com o auxílio da Minha Coleta, a incorporadora atingiu uma taxa de recuperação de 57% dos resíduos gerados simultaneamente em mais de dez canteiros. Essa taxa supera, de longe, a modesta média nacional de reciclagem do país.
O atual momento regulatório também joga a favor. A nova reforma tributária traz gatilhos que podem beneficiar as empresas que adotam práticas de sustentabilidade e logística reversa, premiando a eficiência de ponta a ponta.
Em suma, a equação para as empreiteiras está ficando mais clara: investir na rastreabilidade e no reaproveitamento de entulhos deixou de ser apenas um selo verde para as campanhas de marketing. Trata-se, agora, de uma alavanca fundamental para recompor margens de lucro, reverter a baixa produtividade histórica e se manter competitivo no mercado imobiliário do futuro.